Confiança da Indústria Brasileira Cai ao Menor Nível desde a Pandemia, Aponta CNI

Diego Velázquez
Diego Velázquez

Índice de Confiança do Empresário Industrial soma 19 meses seguidos abaixo da linha de neutralidade, mesmo com a Nova Indústria Brasil em curso.

A confiança dos empresários da indústria brasileira caiu novamente em julho de 2026 e atingiu o menor patamar desde o início da pandemia de covid-19, segundo o Índice de Confiança do Empresário Industrial, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria. O indicador soma 19 meses seguidos abaixo da linha dos 50 pontos, patamar que separa otimismo de pessimismo na pesquisa. O dado chama atenção porque contrasta com o discurso oficial sobre a retomada da política industrial no país, sustentada por programas como a Nova Indústria Brasil e por bilhões de reais em financiamento público. Isso levanta uma dúvida direta para quem acompanha o setor: por que o empresário industrial segue pessimista mesmo diante de tantos recursos e anúncios de investimento? Entender essa aparente contradição exige olhar tanto para os números da CNI quanto para o desenho da política industrial em curso.

O que revela o índice de confiança divulgado pela CNI

O Icei caiu de 46,7 para 44,4 pontos em julho, redução de 2,3 pontos em relação a junho. Com o resultado, o indicador chega ao menor nível desde junho de 2020 e completa a segunda sequência mais longa de pessimismo da série histórica, atrás apenas do período de recessão entre 2015 e 2016. Correio Braziliense

O índice de condições atuais recuou 0,7 ponto, para 41,6 pontos, mostrando que o ambiente de negócios é percebido como pior do que há seis meses. Já o índice de expectativas caiu 3,1 pontos, para 45,8 pontos, na maior retração desde novembro de 2022. Correio Braziliense

Segundo Marcelo Azevedo, gerente de Análise Econômica da CNI, a manutenção desse cenário preocupa porque a perda de confiança costuma se traduzir em redução de investimentos, desaceleração da produção e menor contratação de trabalhadores por parte das empresas. Correio Braziliense

Por que a política industrial não tem revertido o pessimismo

O governo federal lançou em 2024 a Nova Indústria Brasil, com metas até 2033 e financiamento previsto de R$ 300 bilhões até 2026, geridos por BNDES, Finep e Embrapii dentro do Plano Mais Produção. Até o fim de 2025, esse plano já havia desembolsado mais de R$ 653 bilhões em crédito voltado a projetos de produtividade, inovação, sustentabilidade e ampliação de exportações. Agência GovPoder360

Ainda assim, a própria CNI reconhece que a política industrial brasileira segue vulnerável aos ciclos políticos, por não contar com estrutura legal permanente como a do setor agrícola. Em documento apresentado a pré-candidatos à Presidência em junho, a entidade defendeu transformar a política industrial em política de Estado, argumentando que a alternância de prioridades e a descontinuidade de programas de fomento prejudicam o planejamento das empresas. Poder360

Esse pano de fundo institucional ajuda a explicar por que bilhões em crédito disponível nem sempre se traduzem em confiança imediata: para o empresário industrial, o que pesa na decisão de investir não é apenas o volume de recursos anunciado, mas a previsibilidade das regras no médio e longo prazo, especialmente em um ano de eleições.

O que vem pela frente para a indústria e para o cenário eleitoral

De olho no calendário eleitoral de 2026, a CNI apresentou a pré-candidatos à Presidência o documento Construindo o Brasil 2050, com propostas sobre política macroeconômica, inovação tecnológica, infraestrutura, segurança energética e sistema tributário, em encontro que reuniu nomes como Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado em Brasília. Correio Braziliense

No Congresso, a entidade lançou a Agenda Legislativa da Indústria 2026, reunindo 135 propostas consideradas estratégicas para a competitividade do setor, construídas com a participação de federações estaduais, associações setoriais e sindicatos, com destaque para o marco legal da política industrial. Portal da Indústria

Soma-se a esse quadro a expectativa de que a Selic termine 2026 em torno de 12,75%, segundo projeções da própria CNI, o que tende a manter o crédito mais caro para o setor produtivo e reforça a cautela dos empresários diante de novos investimentos. FIERN

Enquanto essas discussões avançam no Congresso e na disputa eleitoral, o Icei deve continuar sendo acompanhado de perto como termômetro do humor empresarial. Uma eventual reversão da sequência de pessimismo dependeria, segundo a própria CNI, de sinais mais claros de estabilidade macroeconômica e de garantias de que a política industrial resistirá a mudanças de governo. Até lá, o desafio do país é conciliar o volume expressivo de recursos já destinados à indústria com a confiança necessária para que esse dinheiro se converta em novos investimentos e empregos.

Fontes consultadas:
https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2026/07/7460339-confianca-da-industria-atinge-menor-nivel-desde-a-pandemia-aponta-cni.html
https://www.poder360.com.br/opiniao/cni-propoe-politica-industrial-de-longo-prazo-para-o-pais/
https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202401/nova-politica-industrial-tem-r-300-bilhoes-previstos-para-financiamento-ate-2026
https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2026/06/7445540-cni-reune-presidenciaveis-em-brasilia-para-discutir-futuro-da-industria.html
https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/brasil-industria/cni-lanca-agenda-legislativa-da-industria-2026-com-135-projetos/
https://www.fiern.org.br/pib-deve-crescer-2-em-2026-projeta-cni/

Compartilhe este artigo