Como transformar a carga tributária em uma oportunidade de crescimento para sua empresa?

Adam Everston
Adam Everston
Victor Maciel

Pergunte a um diretor financeiro quanto a empresa paga de imposto e a resposta virá em reais, somando as guias do ano. O número é verdadeiro e quase inútil. Ele não informa se aquele valor era o devido, se cresceu mais do que a receita, nem se o concorrente ao lado paga proporcionalmente menos pela mesma operação.

Medir eficiência fiscal exige indicadores, não totais. Victor Maciel, advogado tributarista e fundador do Victor Maciel Advogados, destaca que a dificuldade começa antes do cálculo: a maioria das empresas mede quanto pagou, e não quanto deveria ter pago. Quatro indicadores cobrem boa parte dessa distância, e nenhum deles depende de sistema novo: todos saem de dados que a empresa já tem em casa.

Por que a alíquota nominal não mede nada?

A alíquota que consta na legislação vale para uma operação isolada. A empresa não vive de uma operação. O que interessa é a carga tributária efetiva: tudo o que foi recolhido no período dividido pela receita líquida do mesmo período, acompanhado mês a mês. Duas empresas do mesmo setor e do mesmo regime chegam a resultados bem diferentes nesse cálculo.

O índice só ganha sentido quando comparado consigo mesmo ao longo do tempo. Se a carga efetiva sobe enquanto a receita fica estável, algo mudou no caminho: o mix de produtos, a origem das compras, a classificação de itens novos. É esse número que Victor Maciel observa como ponto de partida de qualquer diagnóstico.

O indicador que revela crédito perdido

Carga efetiva alta pode significar duas coisas opostas: a empresa paga demais ou aproveita de menos. A segunda hipótese se testa comparando os créditos efetivamente apurados com o total de aquisições tributadas ligadas à atividade. A diferença entre os dois valores é o crédito que existia e não foi pedido.

Com o crédito financeiro amplo previsto na Lei Complementar 214/2025, essa conta muda de tamanho. Despesas que ficavam fora do conceito estrito de insumo passam a gerar crédito quando vinculadas à atividade econômica, o que transforma cadastro de fornecedores e classificação de despesas em variáveis de resultado. Quem não revisa a base de despesas subestima o próprio crédito e superestima a carga que suporta.

Victor Maciel
Victor Maciel

Quanto custa cumprir a regra?

Uma equipe fiscal de quatro pessoas gasta três dias por mês refazendo arquivos já entregues. Esse tempo não aparece em guia nenhuma, embora seja custo tributário puro. Victor Maciel nota que o percentual de obrigações acessórias retificadas depois do envio é o indicador mais revelador dessa fatia invisível.

Taxa alta de retificação significa que o dado nasce errado na origem e é corrigido depois, sempre com custo. Somando a isso as multas e os juros pagos por atraso no período, chega-se a um total que costuma surpreender empresas organizadas, porque esse gasto fica espalhado entre áreas e nunca é consolidado.

O contencioso como termômetro

Uma empresa lucrativa pede crédito ao banco e recebe negativa. O motivo aparece na certidão: valores em discussão administrativa, acumulados ao longo de anos. O quarto indicador nasce daí e relaciona o montante em disputa ao patrimônio líquido, acompanhado da taxa de êxito nas defesas já encerradas.

Empresas familiares costumam descobrir esse peso no pior momento, quando negociam a entrada de um sócio ou a venda do controle. O contencioso acumulado é o fator que mais reduz o valor de um negócio saudável durante a verificação prévia de uma compra. O comprador desconta do preço aquilo que o vendedor não consegue medir.

Medir para decidir, não para relatar

Indicador que aparece só no relatório anual não muda comportamento. Os quatro números acima funcionam quando entram na mesma reunião em que se discutem margem, preço e investimento, com a mesma periodicidade. Para a maioria das empresas de médio porte, o acompanhamento trimestral já basta, desde que a mesma área responda pelos números em todos eles.

Medir eficiência fiscal muda a pergunta que a diretoria faz. Sai do quanto pagamos e chega ao porquê daquele valor, que é o ponto em que existe decisão a tomar. O tributo continua obrigatório. O desperdício em torno dele é escolha, e escolha aparece em número antes de aparecer em prejuízo.

 

Compartilhe este artigo