Brasil recebe novos equipamentos para ampliar indústria de semicondutores

Adam Everston
Adam Everston

Ceitec, em Porto Alegre, avança na implantação de uma nova rota de fabricação de chips de carbeto de silício, tecnologia estratégica para veículos elétricos, energia renovável e equipamentos de alta potência

A indústria brasileira de semicondutores ganhou um novo impulso com a chegada de equipamentos de alta tecnologia ao Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O maquinário faz parte do projeto de recuperação e modernização da empresa pública e será utilizado na implantação de uma rota de fabricação de semicondutores de carbeto de silício, conhecido pela sigla SiC. A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, visitou a unidade em 17 de agosto para acompanhar a chegada dos equipamentos. (Correio do Povo)

O projeto é relevante porque o carbeto de silício está associado principalmente aos chamados semicondutores de potência. Diferentemente dos processadores avançados destinados a computadores e smartphones, esses componentes são especialmente importantes para controlar e converter grandes quantidades de energia elétrica. Entre as aplicações previstas estão veículos elétricos, sistemas de geração de energia solar e eólica, equipamentos industriais e infraestrutura relacionada à saúde. (Correio do Povo)

Segundo as informações divulgadas durante a visita, a chegada dos novos equipamentos representa aproximadamente 50% da execução física do projeto da nova rota fabril. O investimento destinado aos equipamentos chega a R$ 220 milhões, provenientes do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), por meio de contrato firmado com a Finep em 2024. A estratégia busca recuperar capacidade produtiva nacional e inserir o Brasil em segmentos específicos da cadeia internacional de semicondutores. (Correio do Povo)

Equipamento único na América do Sul chega à Ceitec

Um dos destaques da modernização é um implantador iônico especializado em carbeto de silício. Segundo as informações divulgadas pela Ceitec durante a visita ministerial, trata-se de um equipamento único desse tipo na América do Sul. O implantador funciona como um acelerador eletrostático capaz de bombardear materiais com íons, alterando propriedades físicas, químicas e elétricas necessárias durante determinadas etapas da fabricação de dispositivos semicondutores. (Correio do Povo)

A logística necessária para trazer a máquina ao Brasil dá uma dimensão de sua complexidade. O equipamento foi adquirido de uma fabricante japonesa e precisou ser desmontado em 18 grandes blocos, alguns dos quais pesavam mais de quatro toneladas. O maquinário foi transportado de navio da China até o Porto de Rio Grande antes de seguir para a unidade da Ceitec em Porto Alegre. Equipes internacionais também participam dos trabalhos relacionados à construção e implantação do sistema. (Correio do Povo)

A instalação dessa infraestrutura deverá permitir que pesquisadores, engenheiros e técnicos brasileiros trabalhem diretamente com uma tecnologia que vem ganhando espaço internacionalmente. O objetivo não é competir imediatamente com as fábricas responsáveis pelos processadores mais avançados do mundo, mas desenvolver capacidade nacional em um segmento específico no qual a demanda tende a crescer com a eletrificação da economia.

Carbeto de silício ganha espaço em carros elétricos e energia limpa

O carbeto de silício combina silício e carbono e apresenta características particularmente interessantes para dispositivos eletrônicos submetidos a altas temperaturas, tensões e potências. Essas propriedades ajudam a explicar por que o material ganhou importância na indústria automobilística e energética.

Nos veículos elétricos, por exemplo, semicondutores de potência participam de sistemas responsáveis pelo gerenciamento e pela conversão da eletricidade entre bateria e motor. A mesma lógica aparece em inversores utilizados na geração de energia solar e eólica, além de diferentes aplicações industriais.

Por isso, a escolha do SiC coloca a Ceitec em uma área diferente daquela normalmente associada à corrida pelos processadores de poucos nanômetros utilizados em inteligência artificial, smartphones e computadores de alto desempenho. A estratégia brasileira concentra-se em componentes de potência com aplicações industriais específicas e mercados potencialmente relevantes. (Auto Entusiastas)

Ceitec também retoma produção tradicional de chips

A modernização acontece paralelamente à retomada das atividades tradicionais da Ceitec. A empresa voltou a fabricar seu portfólio de chips de identificação por radiofrequência (RFID) utilizados na identificação de veículos e também está restabelecendo parcerias de pesquisa e desenvolvimento com instituições da região. (Correio do Povo)

Criada legalmente em 2008 e sediada em Porto Alegre, a Ceitec tem como finalidade atuar diretamente nas áreas de semicondutores, microeletrônica e tecnologias relacionadas. A legislação que autorizou sua criação também estabeleceu como função social da empresa o desenvolvimento de soluções científicas e tecnológicas. (Portal da Câmara dos Deputados)

A estatal passou posteriormente por um processo de liquidação, mas a decisão foi revertida em 2023. Desde então, o governo federal vem direcionando recursos para recuperar a infraestrutura e reposicionar a companhia. A chegada do novo maquinário representa uma das etapas mais concretas dessa retomada. (Correio do Povo)

Por que a fabricação de semicondutores é estratégica para o Brasil?

Semicondutores são componentes fundamentais de praticamente toda a economia digital e industrial moderna. Eles estão presentes em automóveis, equipamentos hospitalares, máquinas agrícolas, telecomunicações, eletrodomésticos, sistemas de energia, computadores, data centers e inúmeros equipamentos eletrônicos.

A escassez mundial de chips observada durante a pandemia mostrou como interrupções nessa cadeia podem atingir rapidamente outras indústrias. Montadoras, fabricantes de eletrônicos e diferentes segmentos produtivos precisaram reduzir ou interromper temporariamente a fabricação porque determinados componentes não estavam disponíveis.

Para o Brasil, desenvolver uma indústria nacional não significa eliminar a necessidade de importações — a cadeia global de semicondutores é extremamente internacionalizada e especializada. A iniciativa da Ceitec busca, sobretudo, criar capacidade tecnológica e produtiva doméstica em áreas consideradas estratégicas e fortalecer a participação brasileira em determinados segmentos dessa cadeia.

Projeto pode abrir uma nova fase para a microeletrônica brasileira

A chegada dos equipamentos não significa que o Brasil passará imediatamente a disputar o mercado mundial de chips avançados com os principais polos asiáticos e norte-americanos. Implantar uma cadeia competitiva de semicondutores exige investimentos contínuos, profissionais altamente especializados, fornecedores, pesquisa e desenvolvimento e atualização constante das instalações industriais.

A própria Ceitec ainda enfrenta desafios associados à reconstrução de sua estrutura. Em agosto, a ministra Luciana Santos afirmou ser favorável à realização de um novo concurso para a estatal, embora tenha explicado que uma eventual seleção de funcionários não depende exclusivamente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. A recomposição de pessoal ganhou importância porque profissionais deixaram a companhia durante o período em que ela esteve em processo de extinção. (GZH)

Mesmo assim, o avanço da rota de carbeto de silício representa uma tentativa concreta de posicionar o país em uma área industrial considerada estratégica. Se a implantação for concluída e conseguir avançar para uma produção consistente, a Ceitec poderá assumir um papel importante no desenvolvimento brasileiro de semicondutores de potência destinados à mobilidade elétrica, energias renováveis e outras aplicações industriais.

Fontes

Correio do Povo — chegada dos novos equipamentos à Ceitec

GZH — recuperação da Ceitec e necessidade de profissionais

LNCC — fabricação de chips no Brasil e missão da Ceitec

Câmara dos Deputados — Lei nº 11.759/2008, que autorizou a criação da Ceitec

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