CNI defende política de Estado para blindar a indústria brasileira de importações desviadas

Adam Everston
Adam Everston

Presidente da confederação propõe nova missão dedicada à internacionalização do setor e alerta para o maior déficit comercial da indústria de transformação desde 2000

O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, publicou um artigo defendendo uma política comercial mais firme para proteger a indústria brasileira diante do avanço de importações desviadas de outros mercados, especialmente da China. O texto, divulgado no início de setembro, chama atenção para um cenário que preocupa o setor produtivo há meses: o Brasil bateu recordes de exportação nos últimos anos, mas a indústria de transformação perde espaço tanto no mercado interno quanto nas vendas externas.

Segundo Alban, o país enfrenta hoje o maior déficit comercial da indústria de transformação desde o ano 2000, com participação inferior a 1% nas exportações mundiais de produtos manufaturados. Para o dirigente, o Brasil precisa decidir se quer consolidar uma posição de potência industrial ou se vai continuar como um grande mercado consumidor de produtos fabricados em outros países, papel que classifica como incompatível com o potencial produtivo nacional.

O alerta sobre a triangulação comercial

Um dos pontos centrais do artigo trata do fenômeno da triangulação de comércio, quando produtos que enfrentam barreiras em mercados como o americano ou o europeu acabam sendo redirecionados para países com economias mais abertas, caso do Brasil. De acordo com dados citados pela própria CNI, o país importa cerca de US$ 5 bilhões por ano em produtos chineses que já são alvo de medidas antissubsídio em outros mercados, um indicativo de que parte desse fluxo pode estar sendo desviado para o território nacional.

A entidade também apontou um crescimento expressivo nas importações vindas de países do Sudeste Asiático em 2025, com destaque para a Indonésia, cujo volume importado pelo Brasil avançou 72,8% em maio na comparação anual, e para a Tailândia, com alta de 31,4% no mesmo período. Para a CNI, esses números sugerem uma mudança de rota no comércio internacional que precisa ser monitorada de perto, sob risco de impactar diretamente fábricas instaladas no país.

Alban defende que a defesa comercial brasileira seja mais preventiva do que reativa, com monitoramento sistemático dos fluxos de importação, cruzamento de dados de origem, preço e volume, além de investigações rápidas sempre que houver indícios de desvio de comércio. O dirigente reforça que a proposta não parte da presunção de irregularidade generalizada, mas da necessidade de instrumentos ágeis para identificar padrões atípicos antes que o impacto chegue ao fechamento de fábricas.

Uma sétima missão para a Nova Indústria Brasil

Diante desse cenário, a CNI propõe a criação de uma sétima missão dentro do programa Nova Indústria Brasil (NIB), a política industrial conduzida pelo governo federal por meio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). A nova missão seria voltada especificamente à internacionalização da indústria nacional, com metas próprias, mecanismos de financiamento e maior coordenação entre as áreas de comércio exterior, investimento e inovação.

A confederação também defende ampliar o uso de medidas compensatórias contra subsídios concedidos por governos estrangeiros a suas próprias indústrias, um instrumento que, segundo a entidade, ainda é pouco utilizado pelo Brasil se comparado a outras grandes economias. Para dar suporte técnico a essa agenda, a CNI informou já ter avançado na assinatura de um acordo de cooperação com o MDIC, colocando-se à disposição do ministério para colaborar na análise dos fluxos comerciais.

O tema da defesa comercial também esteve em pauta em uma reunião recente do Fórum Nacional da Indústria (FNI), promovido pela própria CNI em São Paulo, quando a entidade voltou a alertar que a indústria de transformação registrou, no primeiro semestre de 2026, o maior déficit já contabilizado para esse período do ano, de US$ 38,2 bilhões. Durante o encontro, representantes do setor discutiram formas de aprimorar os mecanismos de proteção contra práticas de concorrência desleal, incluindo aperfeiçoamentos no marco legal permanente da política industrial, atualmente em tramitação no Congresso Nacional.

Apesar do tom de alerta, o artigo do presidente da CNI faz questão de diferenciar defesa comercial de protecionismo. Segundo Alban, o Brasil não deve se fechar ao comércio internacional, e sim buscar equidade nas relações com parceiros como China, Estados Unidos e União Europeia, ao mesmo tempo em que investe em competitividade interna. Para a entidade, a resposta ao cenário atual passa tanto pela redução do Custo Brasil, estimado em cerca de R$ 1,7 trilhão por ano, quanto pela implementação de acordos comerciais já negociados e pela busca de novas parcerias estratégicas.

A discussão ganha peso adicional em um momento no qual as principais economias do mundo têm ampliado o uso de instrumentos de defesa comercial. De acordo com dados citados pela CNI, foram abertas 375 investigações antidumping e 64 investigações sobre subsídios em 2024, ambos recordes históricos, sinalizando que a política comercial deixou de ser tratada apenas como uma questão tarifária para se tornar também um tema de segurança econômica entre as principais nações.

Para o setor industrial brasileiro, o desafio segue sendo equilibrar abertura comercial e proteção, sem que uma frente prejudique a outra. A proposta de uma nova missão dentro da Nova Indústria Brasil deve ser debatida nos próximos meses entre governo, Congresso e representantes do setor produtivo, em um contexto no qual o fortalecimento da indústria nacional aparece como consenso entre diferentes forças políticas, ainda que os caminhos para alcançá-lo continuem divergentes.

Fontes:
https://comexdobrasil.com/nao-podemos-ser-a-porta-dos-fundos-da-industria-de-qualquer-outra-nacao/
https://www.abrameq.com.br/post/alban-refor%C3%A7a-prote%C3%A7%C3%A3o-%C3%A0-ind%C3%BAstria-contra-concorr%C3%AAncia-desleal

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